De publicitário a poeta

O ALCCOL a prostituição e a cidade são alguns dos temas da obra de estreia, “Cheio de Tão Vazio”>>

O ALCCOL a prostituição e a cidade são alguns dos temas da obra de estreia, “Cheio de Tão Vazio”, do escritor Mauro Manhiça, lançada no final do ano passado. Os 47 poemas expressam a visão do autor em relação à sociedade. Na sua análise, as pessoas vivem para os bens, materiais e esquecem os sentimentos. Numa breve conversa, manhiça fala da sua obra, do seu percurso e dos seus projectos para este ano, como se verifica nas seguintes linhas.

– É publicitário há 12 anos. Como foi este salto para a literatura, poesia?

– Antes de profissionalizar-me na publicidade, enquanto ainda frequentava a Escola Industrial 1.° de Maio, fazia trabalhos de ilustração para agencias publicitarias. Assim tive os meus primeiros contactos com a publicidade, fiquei a saber como ela funciona, como divulgar produtos, marcas, serviços.

O pulo para a poesia foi algo natural, pois já era um leitor dedicado. Cresci rodeado de livros.

– Como relaciona a publicidade e a poesia?

-Existem diferenças e semelhanças. Enquanto na publicidade vendem-se marcas, produtos e serviços, na poesia “vendem-se” sonhos, emoções.

O texto publicitário não segue algumas características da poesia, como a métrica. No entanto, existem características comuns: os dois textos são sintéticos, curtos. O texto publicitário e poético usam a palavra na sua máxima potência. E para se dizer de forma sintética, deve-se ter um pleno domínio da palavra, do vocabulário.

– Pode esclarecer melhor o poder de síntese?

– Como sempre digo, para exprimir uma situação não precisamos de muitas palavras, apenas das palavras certas. O poder de síntese é um recurso muito importante, sobretudo agora que todo o mundo está a falar.

Quem disser as coisas com sentido e com menos palavras é a pessoa mais destacada.

Cheio de tanta futilidade

– O título do livro, “Cheio de Tão Vazio”, é de certa forma uma provocação?

– Esse título é uma provocação, uma metáfora. Critico o Homem contemporâneo como eu.

E é complicado falar de nos sem sermos imparciais. Eu observo que hoje uma das características comuns do Homem é essa busca, essa caminhada, essa tendência de somar, somar, acumular vazio.

Preocupamo-nos com a soma de riqueza, património material, mas, na verdade, isso tudo é vazio. A maior riqueza não é a exterior, mas aquela que está dentro de nos, a interior. A nossa riqueza interior é infinitamente maior que a exterior, mas não exploramos. Esse título também é uma forma de levantar o diálogo com o interior, de modo a despertá-lo.

– Quando começa a redigir a obra?

– Comecei a escrever há três anos.

– O livro está dividido em três partes. Fala-nos delas?

– Na primeira, “Copo em que me Esvazio”, existem poemas mais introspectivos, mais pessoais. Existe o diálogo interior. Nas restantes partes existe um diálogo com o outro. Na secção “Amor Urgente”, o outro é personificado na figura feminina. Há poemas românticos, de amor, prostituição. Na terceira parte, “Urbe que se Urge”, existe o dialogo com a cidade.

– Percebe-se que a cidade aparece em evidência. Qual é a relação entre os dois?

– Eu sou um jovem urbano, nasci e cresci na cidade de Maputo. Por isso, nos meus trabalhos abordo a cidade, falo do meio onde vivo. A cidade, para mim, é uma personagem. A cidade mistura-se comigo e eu misturo-me com ela.

– Sendo primeiro livro, qual é a sua apreciação em relação à resposta do público?

– Para o primeiro livro, estou satisfeito. A autocritica obriga-me a dizer que o livro, poderia estar melhor, mas, enfim, não me posso queixar.

– A estética é uma das características marcantes da poesia.

– Nos poemas percebe-se pouca preocupação com algumas “regras”. Quer comentar?

– A minha inquietação é expor o que sinto. A estética aparece de forma natural. Percebo que a rima, em alguns autores, é algo forcada. Mas nos meus poemas a rima ocorre ocasionalmente, minha inquietação não é rimar, mas transmitir o que sinto.

– A rima é uma das ferramentas para dar melodia ao poema. Como dá ritmo aos seus poemas?

– Estou suficientemente formado e informado para usar a palavra. E de forma natural, fruto dos conhecimentos que tenho, o ritmo e outras componentes da poesia aparecem.

A banda desenhada e a prosa

– O meio exerce uma influência sobre nós. Onde cresceu?

– Vive boa parte da minha infância no bairro Polana-Cimento, cidade de Maputo. Minha infância foi agitada, muitas brincadeiras. A escola, na minha casa, sempre foi uma prioridade, obrigação. Meus pais, que são trabalhadores reformados do sector público, são de Inhambane, fui educado sobre influência da cultura da cidade Maputo e de Inhambane.

– Ao longo da entrevista deu pra perceber que tem problemas com o barulho, agitação. Isso não interfere no seu processo criativo?

– Sim. Actualmente vivo no Alto Maé, uma zona muito agitada. Espero a madrugada para redigir, é nessa hora que existe maior concentração. Na agencia tenho de me adaptar à agitação do meio e criar, apesar do barulho.

– A banda desenhada marcou a sua génese como ilustrador, neste género. Tem projecto em vista?

– Sou apreciador de banda desenhada, um coleccionador insaciável. As pessoas conhecem-me como ilustrador e estranharam a minha estreia como poeta. Elas pressionam-me para produzir uma obra. Já tenho uma “Grafic Novele” (romance gráfico) praticamente finalizada e espero publicar este ano.

– Já tem título?

– Existem títulos provisórios, mas prefiro não avançar ainda.

– Qual é a temática que explora na banda desenhada?

– É um número com uma história dinâmica. Exploro o contexto. A história acontece no subúrbio. Exploro as características do subúrbio da cidade de Maputo. Exploro as características dos bairros suburbanos. Existem aspectos particulares, a luz, os lugares, as pessoas, os cenários. Ainda trago as diferenças entre os subúrbios e a urbe.

– Já se aventurou pela prosa?

– Sim, já escrevi e escrevo prosa. Em breve, não sei quando, vou surpreender com uma obra.

– Define-se como ilustrador, publicitário ou escritor?

– Não gosto de rótulos. Considero-me criador. Se o que crio é poesia, óptimo; se é prosa, óptimo; se é ilustração, óptimo. Eu quero criar e criar.

– Quais as suas ambições?

Minha ambição é continuar a trabalhar. Para mim, não existe sorte, só trabalho. A fórmula para a realização dos projectos é tentativa erro, tentativa erro, até acertar.